S. L. E. P. – Ideias para Adiar o Fim do Mundo e Sejamos Todos Feministas

Nos dias 03/07/2020 e 17/07/2020, para encerrar a primeira etapa do clube do livro, foram realizadas as discussões dos livros “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, do Ailton Krenak, e “Sejamos todos feministas”, da Chimamanda Ngozi Adichie. A leitura de ambos deu-se em razão de terem recebido uma quantidade aproximada de votos na última enquete, bem como possuírem semelhantes estruturas, uma vez que se tratam da publicação de palestras realizadas pelos autores. Em “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, Ailton Krenak critica a ganância dos homens, lamentando a dissociação entre a humanidade e a natureza; em “Sejamos todos feministas”, Chimamanda Adichie denuncia o machismo, trazendo para o centro de sua fala, por meio de vários exemplos, a desigualdade de gênero

No dia 03/07, especificamente, durante a discussão do livro de Ailton Krenak, os alunos apresentaram, de início, algumas dúvidas, sobretudo a respeito de terminologias e da estrutura da obra, a exemplo dos comentários que seguem:

Participante 1: Mas eu fiquei perdido em alguns pontos, por exemplo: quando ele começou a falar dos “Antropoceno”/ A leitura foi boa e rápida/ com uma linguagem n mto culta e de fácil compreensão

Participante 2: Me perdi no final da leitura. Fiquei tipo: acabou? Já?

O assunto principal do livro promoveu uma rica discussão entre os alunos, de modo que, por meio dele, fossem destacadas questões sobre o retorno da natureza às nossas ações. O momento também foi de autocrítica, conforme se observa no diálogo entre duas alunas, uma do Campus Ceará-Mirim e outra do Campus Macau.

Participante 3: Gostei da vida dele, de como fomos “ensinados” a nos ver como diferentes da Terra/ sem perceber que quando machucamos a Terra machucamos a nós mesmos.

Participante 2: Eu tive uma ideia enquanto lia: por que humanizamos a natureza sendo que poderíamos estar nos naturalizando?

Participante 3: Foi exatamente o que pensei/ quando li imaginei um desenho de montanhazinhas se abraçando/ e aí pensei no conceito de objetos animados, inanimados e tal/ Porque quando queremos que seres e objetos ganhem vida tendemos a representá-los como a gente?/ porque isso é marketing/ se a gente se identifica a gente consome/ a gente gosta

Participante 2: E nisso vi que eu sou um pouco apegada a coisas que são meio que desnecessárias

Além disso, os efeitos do colonialismo também se fizeram presentes na discussão, pois, como sinalizado pelos próprios estudantes, o distanciamento forçado entre o homem e a natureza, tão comum nos dias de hoje, tem sua origem com a chegada do Europeu nas Américas.

Participante 3: Assim como os portugueses chegaram aqui e trataram os índios como se fossem propriedades deles, fazemos o mesmo com as plantas, os animais, os rios

Participante 2: E tem um trecho em que ele se refere a isso. Tudo começou na colônia, caso ainda fôssemos “pertencentes à natureza” veríamos um rio como nosso próprio sangue e fonte de vida

Passadas exatas duas semanas, no dia 03/07, voltamos a nos reunir virtualmente. Desta vez, para discutir o livro da Chimamanda Adichie. Em razão de a autora ilustrar suas falas com casos de machismo que lhe atingiram, como também com questionamentos sobre o feminismo a ela direcionados, os alunos se sentiram à vontade para relatar situações por quais passaram, pondo em evidência, em suas falas, a reprodução da desigualdade de gênero mediante a deslegitimação do movimento feminista.

Um aluno teve a iniciativa de iniciar a discussão trazendo, em tom de desabafo, um relato de como o machismo o atingiu, impondo-lhe um padrão de masculinidade a ser seguido. É assim que ele encerra seu relato:

Participante 1: Não quero ter que mudar quem sou para agradar quem gosto, não quero que alguém mude quem é para me agradar. Quem ama alguém, ama como a pessoa é. Acredito que, se desde pequeno fossemos ensinados a ser quem somos, e não o que a sociedade quer, teríamos evitado incontáveis problemas que hoje são palco dos debates. Por que as sociedades feministas, lgbtq+, etc surgiram? Porque a sociedade queria que fossem algo que não são obrigadas a ser.

Para complementar o comentário do colega, uma aluna segue na mesma direção afirmando:

Participante 2: Os pais colocam expectativas nos filhos pautadas nos ideais de gênero que a sociedade carrega, muitas vezes isso nos machuca, e por grande parte da nossa vida nós vivemos tentando “alcançar” esses objetivos que nem são nossos./ Isso nos afeta a um nível, que quando passamos a nos enxergar como um ser individual deles, com nossos próprios gostos e autonomia, passamos outro grande tempo nos reafirmando, pra nós e pra eles.

Outros pontos destacados pelos alunos foram os significados atribuídos à palavra “feminismo” e a possibilidade de existir homens feministas. A este respeito, quando questionado se era feminista, o aluno que abriu a discussão responde:

Participante 1: Rapaz, considerando o significado de “feminista” dado pela autora (usando como fonte, segundo ela, um dicionário), eu me considero. Acho que a questão não é se existe “homens feministas”, a pergunta que deveríamos fazer é por que não nos consideramos “feministas”? Simples, porque essa realidade é tão centralizada que nos culpamos, lembramos de nossas atitudes no passado e esquecemos do presente.

Uma aluna trouxe outra leitura para este tópico, tendo em vista que, na sua perspectiva, a expressão “pró-feminismo” é mais adequada aos homens que apoiam o movimento.

Participante 2: em alguns países realmente os homens dizem ser feministas, mas por conta dos pronomes, uma profa me explicou que na língua inglesa e em alguns países q usam, os homens realmente dizem ser/ mas aq são considerados homens pró-feminismo/ mas eu, particularmente, gosto mto do termo “pró-feminismo”, acho que deixa bem visível que eles não têm lugar de fala, mas apoiam as mulheres.

Os relatos pessoais também foram produzidos pelas meninas da S.L.E.P., as quais evidenciaram as dificuldades de ser mulher em uma sociedade marcada pela desigualdade de gênero.

Participante 3: Os homens ainda têm muitos privilégios que as mulheres não têm, justamente por causa de gênero/ Um simples, bem simples mesmo, é o fato das mulheres não poderem andar sozinhas a noite. E quando digo “poderem” é pelo medo mesmo de algo acontecer. Pq Deus me defenda de andar sozinha à noite! […] Sinceramente, quero poder andar de noite sem ter medo de ser atacada ou estuprada.

S. L. E. P. – Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente

No dia 20 de junho, os integrantes da S.L.E.P. se reuniram, virtualmente, para discutir a obra “Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente”, de Igor Pires da Silva. O livro é constituído por textos escritos no formato prosa poética, publicados, inicialmente, em redes sociais (Facebook e Instagram) e vinculados ao projeto homônimo (TCD), no qual cinco pessoas – Giovanna Freire, Igor Pires, Jéssica Ferreira, Júlia Rabêlo e Yasmin Vieira – compartilham suas impressões sobre o processo para “curar-se de algo ou de alguém”.

Na discussão, os leitores trouxeram à baila, em um primeiro momento, reflexões a respeito da publicação na versão impressa de textos de fácil acesso virtualmente, conforme mostram os excertos seguintes:

Leitora 1: Talvez no livro as pessoas vejam tudo com mais emoção e muitas vezes nas redes sociais as pessoas passam por sentimentos verdadeiros despercebidos.

Leitora 2: Acho que transformar em livro dá um sentido diferente às coisas, mesmo que elas já estejam a nosso acesso facilmente. Só de estar em um compilado, a gente lê de outra forma, acredito que a necessidade de transformar em livro vá de cada autor. […] e outra coisa que acho legal é que, mesmo sendo uma página de sucesso e já tendo os textos online, eu nunca tinha lido antes. […] então, de certa forma, eles alcançam mais um público, né?

Ainda no que diz respeito à publicação da obra, mais especificamente à autoria dos textos, questionou-se a autoria atribuída, de forma exclusiva, ao Igor Silva, uma vez que o coletivo literário TCD é composto por mais quatro escritoras e os textos, formados por eu líricos femininos e masculinos. Uma terceira leitora da S.L.E.P. realizou, então, uma pesquisa e descobriu que os textos do livro foram produzidos, especificamente, por Igor Silva, socializando sua descoberta com os demais.

Além disso, os leitores abordaram, com maior ênfase, o tema mais recorrente nos textos: o fim de relacionamento. Paralelamente a ele, outros pontos foram problematizados, tais como insegurança, reciprocidade, amor romântico e amor próprio. Alguns integrantes aproveitaram para compartilhar canções relacionadas aos textos, como “Dói sem tanto”, da Anavitória, e “Cuidado paixão”, da Letrux. Uma aluna quadrinista do Campus Ceará-Mirim também se sentiu à vontade para compartilhar com o grupo uma de suas tirinhas, a qual pode ser visualizada no perfil de instagram abaixo.

Durante a discussão, os leitores tiveram a oportunidade de destacar os textos com os quais se identificaram, bem como as ilustrações que mais chamaram sua atenção. Encerramos este post com a avaliação de duas alunas a respeito da obra escolhida:

Leitora 4: Eu gostei do tom poético tanto nos textos quanto nas ilustrações. é um livro q dá mto gatilho, porém, a meu ver, todos os textinhos têm uma mensagem mto importante q CE pode tirar deles.

Leitora 5: Eu me sento abraçada em muitos textos/ a realidade das paixões e do amor/ que mesmo quando existe isso, pessoas podem ir embora/ sobre a dor da parida/ eu tive a impressão de que o livro disse do início ao fim “tudo bem sentir”/ e isso foi tão bom/ gostei demais.

 O próximo livro, escolhido por enquete, a ser lido pelos integrantes do Clube será “Ideias para adiar o fim do mundo”, do pensador indígena Ailton Krenak. 

S. L. E. P. – O Conto da Aia

Na terça-feira, dia 09 de junho, os integrantes do clube do livro S.L.E.P. realizaram a discussão do romance distópico “O Conto da Aia”, da escritora canadense Margaret Atwood. O livro, cuja narrativa traz em primeiro plano o sofrimento de mulheres (Aias) em uma sociedade autoritária (República de Gileade), orientada pelo fundamentalismo cristão, suscitou reflexões sobre opressão, desigualdade social, controle sobre corpos, privação da liberdade e manipulação de informações. Uma das integrantes, aluna do Campus Ceará-Mirim, mencionou a banalização da violência como um tema presente na narrativa, assinalando, em seu comentário, a semelhança com a realidade brasileira. Em suas palavras:

É a mesma coisa que acontece no Brasil e no mundo. Uma mulher é violentada – normal; uma pessoa é assassinada sendo inocente – normal; uma criança é morta de forma brutal – normal. Existe o tráfico de mulheres, crianças, inocentes sendo acusados e mortos e muitos não se importam. Acham que é a realidade de um país é que não precisa ser mudada.

Em diálogo com a aluna do Campus Ceará-Mirim, um estudante do Campus Macau complementou:

Fica clara a forma como todos desistiram e aceitaram tudo como o ‘normal’. Talvez seja por isso que [a leitura da obra] voltou à tona com a eleição de Trump kkkkk. As pessoas lêem e vêem como uma mensagem entregue pela escritora de que não precisamos aceitar o ‘normal’, porque esse ‘normal’ pode ser absurdo.

Além de problematizarem os temas, também foi considerada, durante a discussão, a estrutura da obra. Outro integrante relacionou a narrativa, construída predominantemente na primeira pessoa, à escrita diarística:

(…) a obra como um todo (até onde li) me lembra mto o estilo de um diário. Há momentos em que a própria história deixa em aberto o que pode ter acontecido, reforçando a ideia de limitação, falta de informação e privação da liberdade.

No dia seguinte, como de costume, foi enviado para os alunos um formulário, a fim de que pudessem avaliar a 4ª etapa do clube e sugerir sugestões de leitura para a 5ª etapa. O livro escolhido foi “Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente”, de Igor Pires da Silva.

S. L. E. P. – A princesa salva a si mesma neste livro

Mais uma discussão foi realizada pelos integrantes da Sociedade de Leitores em Época de Pandemia (S.L.E.P.), desta vez em razão da leitura do livro “A princesa salva a si mesma neste livro”, da Amanda Lovelace. A discussão ocorreu nasexta-feira, dia 15 de maio, e, diferentemente dos outros momentos, neste foi possível problematizar questões relacionadas ao gênero discursivo poema. Além disso, diferentemente das etapas anteriores, na quais os integrantes leram narrativas pertencentes aos gêneros romance e conto, o que exigiu um tempo maior destinado à leitura (duas semanas, em média), esta aconteceu em uma semana. Dentre os pontos discutidos, destacaram-se: (1) as possíveis referências a Harry Potter, de J.K. Rowling; (2) os recursos estilísticos utilizados por Amanda Lovelace, como ideogramas e traços colocados sobre algumas palavras; (3) os temas abordados pelo eu lírico. Alguns poemas foram selecionados pelos integrantes e comentados de forma mais minuciosa. Durante a interação, também foi possível relacionar “A princesa salva a si mesma neste livro” a outros livros, especialmente devido ao estilo da obra, como fizeram duas alunas, uma do Campus Ceará-Mirim e outra do Campus Macau:

  • “Lembra um pouco a estrutura dos poemas do livro Outros jeitos de usar a boca”.
  • “Uma coisa q eu fico pensando sempre que leio poemas desse estilo, como os de Outros jeitos de usar a boca, é que não é nada sútil kkkk. Pelo menos eu, costumo ler aqueles poemas cheios de metáforas, coisas nas entrelinhas. Esses são muito diretos. Eles cortam você como uma faca”.

No dia seguinte, foi enviado aos integrantes um formulário para avaliação da terceira etapa do Clube e escolha da próxima leitura. Com 68,8% dos votos, venceu o livro “O conto da Aia”, de Margaret Atwood.​

S. L. E. P. – Felicidade Clandestina

Felicidade Clandestina – Clarice Lispector

Na sexta-feira, dia 08 de maio, a Sociedade de Leitores em Época de Pandemia (S.L.E.P.) discutiu a segunda leitura: Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector. Os integrantes decidiram que, a partir da segunda leitura, os livros deveriam abordar temas e gêneros literários variados, a fim de tornar a experiência estética mais enriquecedora. Durante a discussão, por exemplo, foram explicitados (1) os contos que mais agradaram os leitores; (2) a recorrência de alguns elementos na narrativa Clariceana, como temas existenciais – o que, segundo os leitores, tornava os textos mais profundos – e escrita fragmentada e plurissignificativa; (3) a necessidade de estar retomando passagens dos textos como estratégia para construir sua interpretação. Dentre os 25 contos do livro, “O ovo e a galinha” foi o mais comentado, muito provavelmente em razão de sua complexidade, conforme sugeriram os próprios alunos. Após a discussão, foram indicados títulos para a próxima leitura e aberta uma enquete para a escolha da obra. Com 30,8% dos votos, foi escolhido o livro de poemas “A princesa salva a si mesma neste livro”, de Amanda Lovelace.

S. L. E. P. – A Peste

No dia 17 de abril, a Sociedade de Leitores em Época de Pandemia (S.L.E.P.), clube do livro formado por alunos e servidores dos Campi Ceará-Mirim e Macau, concluiu a leitura de A Peste, romance do escritor franco-argelino Albert Camus. A leitura iniciou-se no dia 01 de abril, e as discussões ocorreram, de forma contínua, no grupo do WhatsApp, ganhando ênfase no último dia. Dentre os pontos levantados pelos participantes, destacaram-se: (1) a relação da obra com a pandemia por Covid-19; (2) o caráter alegórico da peste, a qual, indiretamente, estaria relacionada a uma sociedade já adoecida; (3) a construção do narrador, que discorre sobre os acontecimentos da trama na terceira pessoa do discurso, apesar de ser também personagem do romance; (4) os conflitos entre as personagens, marcados, por exemplo, por instantes de racionalidade e religiosidade.

Na oportunidade, foi enviado um formulário para avaliação do primeiro momento do clube e escolha do título da segunda obra.